Doping em corridas de aventura
impressões médicas em corridas de aventura segundo
o Dr Clemar Corrêa
Dr. Clemar, os atletas se dopam nas corridas
?
Várias vezes repórteres me fizeram essa pergunta.
E eu sempre respondia a mesma coisa: “Não posso afirmar
isso pois nunca flagrei nada – e obviamente, se alguém
fizesse isso não o faria na frente dos médicos. E
mesmo que eu soubesse de algo assim, eu não iria dizer, principalmente
por um respeito ético, já que o atleta merece o meu
segredo médico para tudo que ele me conta. “
Porém, no último Ecomotion Pro (Bahia) alguns atletas
declararam sem qualquer constrangimento, a vários repórteres,
que além da cafeína, usam outros estimulantes. Foi
citado o uso de Efedrina, Ripped Fuel, Xenadrine e Therma Pro.
Isso veio obviamente ao conhecimento geral e surgiram vários
e-mails na rede comentando o assunto. Várias pessoas também
me questionaram a respeito.
Como médico em várias corridas, incluindo o Eco Pro
Bahia, me senti no dever de comentar o assunto, no sentido de esclarecimento
e repetindo um alerta para a segurança e ética nas
provas. Inclusive a repórter Renata Leão, da revista
Trip, me procurou e fez algumas perguntas. Como só uma parte
do texto sairá na revista, coloquei abaixo as principais
perguntas e a essência das minhas respostas. São exatamente
sobre temas importantes que estão envolvendo as corridas
de aventura no mundo.
Dr. Clemar, os atletas nas corridas de aventura
usam drogas ilícitas ?
Essa é a eterna pergunta. Vamos considerar ilícitas
as drogas proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional
. Eu nunca vi nada e mesmo que soubesse não te diria agora
por um respeito ético de médico. E eles não
usariam na minha frente. Mas o fato é que, como você
e outros jornalistas constataram, alguns atletas assumiram que estão
usando estimulantes do sistema nervoso central. Mas é importante
frisar que são alguns, não todos !
Mas alguma vez já tinha passado pela
sua cabeça que eles estariam usando ?
Sim, muitas. Como médico, eu percebia . Já escrevi
sobre isso, alertando sobre os perigos. E em várias vezes
eu conversei em particular com alguns(e algumas) atletas, deixando
subentendido a minha suspeita. Se algum(a) deles ler isto, vai se
lembrar. Por outro lado, muita gente acha que para os atletas terem
essas performances impressionantes ou ficarem tanto tempo sem dormir
precisam necessariamente de “bombas”. Eu digo tranqüilamente
que não. Quando vemos equipes como a Seagate neozelandesa
ou a Golite americana, temos que lembrar que a maioria desses atletas
está nas corridas há muito mais tempo que os brasileiros,
alguns há mais de 12 anos. Eles praticamente não erram
na navegação, têm transições impecáveis,
pedalam muito bem, remam bem, dominam técnicas verticais,
estão acostumados com as agressões da natureza, comem
bem, têm bons equipamentos, são fortíssimos,
treinam muito e principalmente controlam muito bem conflitos, sono,
dor e sofrimento. Isso faz a diferença entre a vitória
e a derrota. Acredito sinceramente que se fizessem um controle de
dopagem rigoroso nas melhores equipes do mundo, o índice
de positividade seria muito menor do que se pensa. Eu costumo fazer
uma analogia com o Michael Schumacher, da Ferrari. Por que ele é
imbatível ? Porque tem um excelente projetista, excelentes
mecânicos, o melhor motor e suspensão, um ótimo
Pit Stop, excelente performance como piloto, a conhecida disciplina
germânica, etc.. Assim, não precisa adotar métodos
desleais no esporte. Além disso o Brasil não tem tradição
em esportes de aventura. Aqui a criança bem pequena ganha
uma bola ou uma boneca. Na nova Zelândia por exemplo, ela
ganha um caiaque e vai para o rio às vezes no fundo de sua
casa. Ou vai para as montanhas de neve com seu pai.
E como os atletas conseguem ficar tanto tempo
sem dormir ?
Não é absolutamente só por causa da cafeína,
que nem todos usam, ou de outras drogas. A própria euforia
da prova é um grande estimulante. É aquela “gana”
de chegar na frente ou pelo menos poder completar a prova, sem cortes,
de ampliar seus limites. Suponhamos que uma mãe tenha um
filho pequeno que fique muito doente e seja hospitalizado. Se for
preciso ficar acordada ao lado dele por 72 horas pode ter certeza
que essa mãe ficará e sem drogas. Ou seja, o corpo
e a mente têm seus próprios estimulantes muito potentes,
que são recrutados quando necessário. Além
disso o atleta tem o desconforto do sofrimento físico e mental,
a dor das lesões, e um aumento da temperatura corporal pelo
exercício intenso. A hipertermia leve dificulta o sono. E
você já tentou dormir com dor ? Já tentou dormir
num quarto muito quente e desconfortável ? Isso sem contar
os locais onde há o frio violento.
Por outro lado, é possível administrar a privação
de sono com boas táticas. Há períodos do dia
e da noite em que se consegue aproveitar melhor o sono durante a
corrida. Inclusive, na semana que antecedeu o Ecomotion da Bahia,
convidei o Dr. Flávio Aloe, especialista em Sono, lá
do Hospital das Clínicas, que deu uma excelente palestra
sobre o gerenciamento do sono nas corridas de aventura. Compareceram
mais de 100 atletas.
E como eles suportam tanta dor ?
Os atletas tomam freqüentemente doses altas de analgésicos
e antiinflamatórios, que de forma geral não são
ilícitos. Alguns tomam exageradamente, o que não aumenta
o efeito analgésico, só judia do estômago. E
algumas das substâncias liberadas no nosso corpo durante o
stress físico e mental também têm um efeito
analgésico, embora fugaz. Eles têm também muitíssima
garra, que os empurra quando a força física vai acabando.
Na realidade muitos atletas, quase sem perceber, dominam a dor com
um trabalho mental excepcional. Em nosso cérebro, a dor recebe
um componente subjetivo de sofrimento. Há por exemplo medicamentos
e cirurgias que conseguem abolir não a dor, mas a sua conotação
desagradável. É como se a dor continuasse, mas sem
incomodar mais. Algumas pessoas no mundo conseguem isso com extremo
autocontrole, similar a Auto-Hipnose. Alguns atletas fazem isso
sem perceber. Um exemplo extremo de domínio da dor foi o
do Capitão da equipe CSC americana, Tyler Hamilton, no último
Tour de France. É uma das maiores provas de resistência
e força do ser humano, durou 20 dias e teve mais de 3.400
Km em montanhas. Numa queda na primeira etapa, ele fraturou a clavícula.
Mesmo assim conseguiu terminar a prova, em 4º lugar ! Você
imagina o que esse atleta suportou de dor e o esforço que
ele teve que fazer ?
Quais são essas substâncias
estimulantes ? Como elas agem nos atletas ?
Vocês constataram o uso de Efedrina, Ripped Fuel, Xenadrine
e Therma Pro. Esses três últimos são compostos
que contém exatamente a Efedrina, que é um poderosíssimo
psicoestimulante. A Efedrina é uma substância parecida
quimicamente com as anfetaminas. Ela causa um potente estímulo
cerebral e aumenta a liberação, no corpo, de algumas
catecolaminas, substâncias que agem em vários órgãos,
incluindo cérebro, coração, vasos sanguíneos
e pulmões. É usada para se conseguir ficar muito mais
tempo acordado, deixa o atleta muito mais excitado, e aumenta violentamente
a disposição para a performance física. Ela
é retirada de um extrato vegetal (Ma Huang) de um tipo de
erva chamada Ephedra e muito utilizada na composição
de vários suplementos dietéticos (citados acima).
Nos Estados Unidos a venda de produtos desse tipo, com a Efedrina,
movimenta cêrca de 2 bilhões de dólares por
ano. A propaganda diz que são ergogênicos (aumentam
a “energia” do corpo), termogênicos (produzem
mais calor com o aumento do metabolismo), anorexígenos (diminuem
o apetite) além de serem “Fat Burn“ (queimadores
de gordura). Na realidade a Efedrina não tem todas essas
ações. Já imaginou se existisse mesmo uma substância
assim, que maravilha ? A Efedrina geralmente é associada
nessas composições com a Cafeína, que potencializa
sua ação. Outras associações incluem
ainda a Aspirina (AAS), nos chamados ECA (Efedrina - Cafeína
- AAS). Os consumidores do Ripped Fuel, Xenadrine e Therma Pro os
compram para “treinar muito mais, perder o apetite e emagrecer
com a ação da queima da gordura” . Alguns também
os usam associados a bebidas alcoólicas, em festas, principalmente
nas “Raves”. Na realidade a Efedrina, principalmente
associada à Cafeína, diminui muito o sono e aumenta
muito a disposição para o exercício físico.
Ela mascara perigosamente a sensação de cansaço
para o atleta, retardando a exaustão. A Efedrina é
sim um calorígeno, pois aumenta o metabolismo. Mas sua ação
no apetite e na queima de gordura não é importante.
Na realidade, a Ciência ainda não descobriu uma substância
que realmente “queime gordura” de uma forma importante.
O que acontece é que as pessoas tomam esses suplementos,
ficam “elétricos”, treinam muito mais, cuidam
melhor da dieta e por isso emagrecem mais rápido e ficam
melhor fisicamente.
Eles usam muita cafeína. Ela (cafeína)
é proibida ?
Proibido significa “Doping Positivo”, se considerarmos
o controle de dopagem adotado internacionalmente, que é o
do Comitê Olímpico Internacional. A cafeína
é Doping Positiva só quando estiver em concentrações
acima de 12 microgramas por mililitro de urina (12 mmg/ml) . Então
vamos fazer um cálculo: os atletas usam cafeína em
preparações (cápsulas) com cerca de 200 mg,
o que significaria 3 a 6 cafezinhos (dependendo destes serem preparados
“fortes” ou “fracos”). Para atingirem a
concentração de 12 mmg/ml na urina, um adulto teria
que ingerir cerca de 2,0 cafezinhos por hora, ou seja, 48 cafezinhos
em 24 horas ! E um atleta teria que tomar mais de 10 cápsulas
dessas por dia, o que eles não fazem. Nessas condições,
nas corridas de aventura o atual uso da cafeína não
seria condenado pelo Comitê Olímpico Internacional.
NOTA
Depois dessa entrevista soubemos da decisão oficial do Comitê
Olímpico Internacional liberando totalmente a cafeína.
Portanto ela não é mais Doping Positiva.
A Cafeína é perigosa ?
Em doses altas pode causar dor-de-cabeça (cefaléia),
tremor fino, irritabilidade e até mesmo arritmias cardíacas.
Como aumenta a diurese (volume de urina eliminado), facilita a desidratação.
Assim, em ambientes quentes e intensa atividade física, comprometeria
o controle térmico corporal, facilitando a hipertermia, que
pode ser muito grave. Pode causar diarréia, outro sério
problema no balanço hidroeletrolítico dos atletas
de esportes de aventura.
E a Efedrina é Doping Positiva ?
Sim, mas acima de 10 microgramas por ml de urina (10mmg/ml). Mas
uma coisa é ser Doping Positivo, e outra é ser perigoso
para o atleta.
E quanto de Efedrina o atleta teria que usar
para atingir esse nível ? E quais são os perigos ?
Essa é uma grande discussão na literatura. Não
se sabe ao certo. Depende inclusive de cada indivíduo, como
sempre. Alguns especialistas acreditam que a ingestão de
1 cápsula desses suplementos (cerca de 20 mg de Efedrina)
por dia já permite alcançar esse nível. Por
aí você vê que o Comitê Olímpico
tem uma baixa tolerância ao uso dela, pela intensidade da
sua ação.
O grande problema do uso de substâncias para “suportar
o sono” é o seu efeito indireto. O sono e o cansaço
na realidade não desaparecem, apenas são “adiados”.
Chega um momento em que o atleta não consegue raciocinar
adequadamente, fica com o humor alterado, etc., facilitando assim
erros de navegação, de logística, de administração
de conflitos, tomada de decisões, por exemplo. Nesse momento
ficam comprometidos também reflexos importantes para evitar
por exemplo uma queda séria da bike, uma remada rápida
no duck, um controle na corda, etc. . Inúmeros atletas já
se perderam assim ou tiveram acidentes importantes. E tem mais:
quando passa o efeito desses psicoestimulantes, surge o efeito rebote
- o sono e o cansaço vêm “com tudo”, violentos
e incontroláveis, e aí o atleta tem que parar em qualquer
lugar ou situação ou cai, por exemplo, da bike.
Quanto aos perigos da Efedrina, são: tremor, ansiedade (às
vezes depressão), náusea, taquicardia, arritmias cardíacas
e um aumento da pressão arterial e da temperatura corporal.
Você imagine isso num atleta, numa corrida grande, onde ele
já está em leve hipertermia, exausto, desidratado,
comendo mal, imunodeprimido, etc. ! E muitas vezes já intoxicado
com alguma coisa. Um grande problema do uso dela é que o
atleta perde a adequada percepção do esforço,
e passa perigosamente do seu limite de segurança . Ou seja,
ele afunda o pé no acelerador sem perceber, numa ladeira
de lama !
E normalmente o que acontece ? À medida que vai surgindo
o sono e o cansaço intensos, fica difícil para o atleta
diferenciar as duas coisas. E mesmo assim ele insiste em não
parar. Aí toma mais cafeína ou alguns tomam mais efedrina.
Os níveis dessas substâncias então vão
aumentando perigosamente no organismo e o atleta já está
forçando o coração, pulmões e músculos
a um nível de trabalho que esses órgãos não
conseguem fazer. E o organismo do atleta está lutando intensamente
para manter o que chamamos de homeostase, que é o reequilíbrio
das alterações constantes de temperatura, hidratação,
glicemia, concentrações de sais minerais, etc.. Sem
contar que esse mesmo atleta já tomou uma mistura de outros
medicamentos como antiinflamatórios, antialérgicos,
analgésicos, etc. . Esse é o momento em que a combinação
do sofrimento geral do corpo, do esforço excessivo, do uso
de medicamentos perigosos e da exaustão cardíaca pode
levar a tragédias. O atleta estica tanto o elástico
até o momento em que esse elástico rompe. Há
inúmeros relatos de mortes assim no mundo todo, em vários
esportes e mesmo em pessoas que treinam sem competir. Recentemente,
o jogador de beisebol Steve Bechler, de 23 anos, do Baltimore Orioles,
morreu e a autópsia relacionou a causa da morte ao Xenadrine.
NOTA
Dias após esta entrevista, o U.S. Food and Drug Administration
(FDA) anunciou que vai proibir o uso da Efedrina, por considerá-la
extremamente perigosa. Esse órgão já catalogou
155 mortes e mais de 16.500 casos de distúrbios não
fatais relacionados ao seu uso, só nos EUA. Estudos mostraram
que ela causa não só problemas cardíacos, mas
também cerebrais graves. A medida teve apoio total da Associação
Americana de Cardiologia e Associação Médica
Americana.
E aquela atleta que morreu na Patagônia
?
Foi a Tatiana Goldoni, da equipe paraguaia Dark Dogs, no Desafio
dos Vulcões de 2002. Era uma excepcional atleta e tinha estado
no EMA da Amazônia meses antes, quando a conheci. Quando ela
teve a súbita parada cardíaca, surgiu um comentário
geral de que poderia ter sido pelo uso de drogas. Isso foi muito
triste, pois fizeram comentários infelizes sobre uma grande
atleta que nem pôde se defender, pois estava morta. Eu inclusive
escrevi um longo artigo na época, comentando isso, para a
revista Aventura e Ação. A morte súbita no
esporte não está necessariamente relacionada a doping.
Inúmeros atletas já morreram assim e eram atletas
“limpos”, isto é, não usavam substâncias
ilícitas. Muitas vezes o atleta tem uma lesão silenciosa,
sem sintomas, principalmente cardíaca ou cerebral, e durante
o esforço brutal essa lesão se manifesta, matando-o.
É como você tivesse um pequeno problema no motor do
seu carro, que não compromete seus percursos aqui na cidade.
Mas quando você faz uma viagem de 500 quilômetros, ele
pára na estrada pela exigência maior do motor. Por
isso eu já falei e escrevi várias vezes sugerindo
aos atletas que façam sempre um sério check-up. Mas
infelizmente nem todos o fazem. É uma pena que alguns atletas
paguem por exemplo 3.000 dólares numa bike, mas não
invistam um mínimo na sua avaliação clínica.
Além disso, vale lembrar que nas corridas de aventura, numa
emergência dessas, o atleta está geralmente muito longe
do resgate e da equipe médica. Isso leva quase a zero a chance
dele sobreviver.
NOTA
Vários indícios científicos mostram que o exercício
físico extenuante, realizado de forma súbita, aumenta
significativamente o risco de falência cardíaca. A
incidência absoluta de morte durante o exercício físico
é da ordem, por ano, de 0,75 / 100.000 (atletas jovens masculinos),
0,13 / 100.000 (atletas jovens femininos) e 6,00 / 100.000 (homens
de meia – idade) . Observe-se que a chance de homens de meia
– idade é oito vezes maior em relação
a homens jovens !
Diante, por exemplo, de uma parada cardíaca como a da atleta
Tatiana Goldoni, os companheiros da vítima devem atender
pronta e eficientemente. Infelizmente, no ambiente outdoor, as chances
de sucesso nas manobras de ressuscitação do atleta
são virtualmente nulas. Estudos mostram que pouquíssimas
pessoas não-médicas fazem corretamente tais manobras.
Por exemplo: uma massagem cardíaca bem feita consegue produzir
apenas 35 % do trabalho cardíaco normal. Imagine-se então
a ineficiência de manobras incorretas ! Além disso,
para cada minuto de atraso na instalação de técnicas
corretas de ressuscitação, cai em 7% a 10 % a chance
de sobrevida da vítima ! E o cérebro, após
6 a 7 minutos sem oxigenação, tem lesões irreversíveis
. Sendo assim, todo atleta deveria capacitar-se a oferecer eficiente
atendimento inicial, através de estudos e treinamento.
Equipes de resgate, médicos e paramédicos competentes
e bem equipados devem ter imediata resposta a um chamado de resgate.
E a organização das provas deve ter planejamento logístico
e técnico de altíssimo nível para atendimento
de emergências nos locais de competição. Atualmente
temos mais de 40 corridas por ano no Brasil e infelizmente não
é comum vermos essa estrutura. Isso é muito preocupante
quanto à segurança das provas.
Houve outras mortes nas corridas de aventura
?
Sim. Foram noticiadas internacionalmente algumas: na prova Fundy
Multi-Sport Race de 1999, no Canadá, o atleta canadense René
Arsenault morreu de hipotermia, em águas geladas, numa etapa
de caiaque. No último Raid Gauloises, no Quirkstão,
morreu afogada Dominique Robert, uma excepcional atleta de 46 anos.
Ela inclusive já tinha ganhado uma vez essa prova e um Eco
Challenge. Na etapa suíça do World Championship, em
Saint Moritz, a atleta inglesa Carolyn Jones ficou presa mais de
20 minutos sob a água gelada, num cânion, e foi resgatada
quase morta. Conseguiram ressuscitá-la e ela ficou 2 meses
em coma. As últimas informações que tive informam
que ela hoje está numa cadeira de rodas, com sérias
seqüelas neurológicas. No mundo todo há anualmente
cerca de 10 corridas importantes e mais de 300 menores. Não
sabemos se houve outras mortes não divulgadas na mídia
internacional .
NOTA
No mesmo mês da morte de Tatiana Goldoni, foi relatada a morte
de um atleta em alta montanha, numa corrida nas Filipinas. No Raid
The North, na Colúmbia Britânica, em 1999, um membro
da imprensa morreu quando seu carro caiu num rio.
As corridas de aventura são saudáveis
?
Vamos falar do aspecto físico e não do psicológico
. Quanto às corridas de curta duração eu diria
que sim. Porém, do ponto de vista físico as grandes
corridas são uma grande agressão ao corpo, não
são saudáveis e isso não é segredo para
ninguém. Basta olhar para os atletas no meio e no final dessas
provas. Vá ver um final de um Eco Challenge por exemplo.
Na minha opinião você pode chamar uma prova como o
Eco Challenge de Fiji de tudo, menos de esporte. É, sim,
uma prova cruel de sobrevivência. Pergunte às equipes
brasileiras que estiveram lá. Muitos consideraram aquela
prova um inferno, um absurdo. Inclusive há inúmeras
publicações especializadas no exterior que têm
questionado muito a realização desses eventos. O próprio
Mark Burnett considera seu Eco Challenge um entretenimento de mídia,
similar ao também seu Survivor (que deu origem ao No Limite,
no Brasil) e não exatamente uma competição
esportiva. Quero crer que num futuro próximo predominarão
as corridas como o Ecomotion Pro Bahia e provas menores, como o
Short Ecomotion, EMA, Raid Brazil, Raid Brotas, FAAP Eco Adventure
e Adventure Camp, as quais conheci em detalhes.
A agressão e o perigo vêm da privação
de sono, das infecções, das intoxicações,
dos inúmeros traumas, das lesões de pele principalmente
nos pés, da má alimentação, desidratação,
exaustão física, da exposição contínua
ao Sol, do calor, do frio, do perigo dos animais selvagens, do risco
de afogamento, avalanches, da dor, do stress, do sofrimento, da
queda brutal da imunidade, etc.. Esse é o preço da
aventura no seu limite máximo . No entanto, temos que reconhecer
que em praticamente todos os esportes, há muitos atletas
de ponta também bastante machucados. Veja por exemplo o Ronaldinho,
Aurélio Miguel, Ana Moser. São atletas que já
tiveram sérias lesões em treinos e competições.
Na Medicina Esportiva há uma frase clássica que diz
“O esporte não é saudável – o treinamento
sim”. A grande diferença a meu ver, é que nos
esportes olímpicos as lesões e o sofrimento são
acidentais e nas corridas de aventura gigantes a lesão e
o sofrimento são “ o espetáculo “, o “
Reality Show”.
NOTA
O relatório médico OFICIAL do Eco Challenge de Fiji
2002, elaborado pelo diretor médico Dr. Adrian Cohen informa
o atendimento de 989 (!!) situações médicas,
envolvendo atletas, mídia e organização. Acredita-se
que esse número deva ter sido maior, pois houve momentos
de tanto trabalho nos postos médicos que não se conseguia
anotar os atendimentos. Esse relatório descreve também
que 11 (!!) atletas foram internados até o final da prova,
a maioria por infecções. Nesses números não
estão computados os atletas que precisaram de atendimento
médico após voltarem para seus países nem os
casos que precisaram de cuidados hospitalares dias após a
prova, como o do Alexandre Freitas.
E as corridas de aventura são perigosas
?
Muito e isso também não é segredo para ninguém.
Já comentei isso na resposta anterior. Poucos reconhecem
realmente essa verdade. Quando algum atleta diz o contrário
eu pergunto: você já parou para pensar quantas vezes
você passou muito perto de se acidentar seriamente ? Quantas
vezes você quase caiu pedalando forte numa pirambeira ? Você
já virou a canoa e ficou preso numa galheira na curva de
um rio forte ? E os trekkings em neve, com temperaturas negativas
e tempestades de neve ? E quantas Jararacas não passaram
perto da sua perna, à noite, muito longe de um resgate ?
Mas muitos outros esportes também são perigosos, como
o Rugby, Futebol Americano, Ski, Judô, Karatê, etc..
As grandes escaladas, as travessias oceânicas, os rallys de
velocidade, as tentativas de travessia a nado do Canal da Mancha
ou do Canal de Bering também. Já houve mortes na maioria
desses esportes. E na realidade, até atravessar uma grande
avenida em São Paulo é perigoso e você não
pode vacilar.
E o Alexandre Freitas ?
Como todo mundo já sabe, ele teve uma infecção
gravíssima no final do último Eco Challenge (Outubro
de 2002), por um parasita da região de Fiji e do Sudeste
Asiático, chamado Angiostrongylus cantonensins. Concluímos
que foi com a ingestão de um peixe contaminado, quase no
final da prova. A doença foi extremamente agressiva porque
o Alexandre estava muito imunodeprimido no final da competição.
Trabalhos mostram que provas de 2 horas a 75 % do VO2 máximo
já comprometem a imunidade. Imagine uma prova violenta como
o Eco Challenge. O Coelho, a Carmen e o Pupo (que estavam na equipe)
disseram que ele no começo da prova ficou com vômitos
e diarréia por mais de 48 horas e não desistiu, num
esforço sobrehumano, naquele inferno de frio e calor. Isso
o debilitou ainda mais. Em corridas no exterior já houve
vários outros casos de sérias doenças em atletas.
Acompanhei a evolução do Alexandre desde o início,
tenho visitado-o e ele está se empenhando e se recuperando
bravamente. Se Deus quiser logo mais vai estar com a gente por aí.
NOTA
Falou-se muito que em Fiji havia “super bactérias”,
mais resistentes que as habituais, responsáveis por situações
gravíssimas como a que ocorreu com a Nora, da Atenah e com
o Alexandre. Na realidade, as bactérias provavelmente são
as mesmas, mas os atletas é que atingiam condições
de baixíssima resistência física e imunológica,
pelo esforço. Daí a ação devastadora
das infecções. Acredito que num futuro próximo
os atletas das corridas de aventura poderão se beneficiar
de substâncias que diminuam o déficit imunológico.
O que poderia ser feito para controlar o
doping nas corridas ?
O que está aparentemente havendo nas corridas de aventura
é exatamente o que ocorre em qualquer esporte que vai se
profissionalizando, ficando mais competitivo. Ou seja, a adoção
de substâncias e estratégias que melhoram a performance.
Além dos riscos à saúde, o doping dá
uma vantagem desleal de um competidor sobre os demais e compromete
os aspectos éticos e morais do esporte. Um outro problema
do doping é comprometer a imagem do atleta. Assim, entre
outras coisas, a obtenção de bons patrocinadores vai
ficar ainda mais difícil. O Rafael da Mitsubishi/Quasar/Lontra
lembrou também a preocupação de pais com relação
às corridas, pelo doping. A saída é tentar
conscientizar e alertar os atletas e também criar um controle
de dopagem nas provas. O grande problema é o custo desse
controle. Por exemplo: se quisermos um anti-doping homologado, oficial
e completo, o preço só do laboratório é
de cerca de U$ 500,oo por atleta, sem contar a elaboração
de um regulamento, montagem de uma equipe de coleta e uma comissão
de justiça e peritagem para discutir recursos de defesa.
E o único laboratório homologado no Brasil, pelo Comitê
Olímpico Internacional é o da UFRJ, no Rio de Janeiro.
Outra opção seria fazer as análises no Departamento
de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da USP. Embora não homologado pelo COI,
é um laboratório seríssimo e o custo seria
muito menor. Para todas as substâncias o preço seria
de aproximadamente R$ 500,oo e apenas para os psicoestimulantes,
R$ 100,oo por atleta. Isso seria muito mais viável na nossa
realidade e será a minha proposta para as corridas aqui (mesmo
as menores). No Eco Challenge foi usado um teste na urina de 10
atletas, incluindo alguns dos vencedores. Esse teste podia detectar
apenas a presença qualitativa (não quantitativa) de
maconha, cocaína, narcóticos, benzodiazepínicos
e anfetaminas. E nenhum dos testes foi positivo. Quanto à
legislação, algumas grandes corridas no mundo já
têm uma pequena lista de substâncias proibidas.
E o papel do médico nessas corridas
?
Nossa função é tentar aprimorar medidas preventivas
para as doenças, acidentes, perigos e lesões, preparar
o material médico (aparelhos e medicamentos) e ajudar na
estrutura de resgate e atendimento médico. Temos também
que pesquisar quais são as doenças e animais do local
das provas, as vacinações necessárias, alertando
a organização e participantes em “briefings”
e comunicados. Dependendo da prova, tudo isso é muito difícil
e nunca é o ideal, principalmente no Brasil, pelo custo.
Há que se lembrar que estamos atendendo num ambiente outdoor,
com todas as suas peculiaridades hostis e dificuldades (ou impossibilidade)
de resgate. Estamos longe de bons hospitais. Além disso,
temos que tentar fazer com que o atleta, mesmo machucado, possa
continuar competindo, com segurança para ele e para os organizadores.
Isso é muito mais difícil do que parece. Temos que
interpretar e diagnosticar situações sem exames de
sangue ou radiológicos. E o quadro clínico do atleta
tem sinais e sintomas “misturados” de várias
situações, como exaustão física e mental,
intoxicações, infecções, alergias, ferimentos,
desidratação, hiper ou hipotermia, stress emocional,
etc. . A chance de erro diagnóstico é muito grande,
inclusive pela pressão do atleta que quer que você
“faça alguma coisa”. É muito estressante
e já refleti muito sobre isso. Acredito que minha experiência
em Pronto Socorro, em Neurocirurgia, no Corpo de Bombeiros de São
Paulo e em provas enormes como o Rally dos Sertões me ajudou
muito nas corridas. Outras vezes equipes desaparecem por mais de
24, 36 horas, e você não sabe como e onde elas estão,
se houve algo muito grave, se não chegou o sinal de um pedido
de resgate. Eu já rezei muito, várias vezes, em provas.
E como é permitir que um atleta machucado
continue ?
Isso faz parte da Medicina Esportiva. E a medicina dos esportes
extremos “outdoor” é similar à Medicina
Militar. Você tem que encontrar o limite exato entre a lesão
que permite ao atleta continuar e a lesão impeditiva para
isso. Quando você dá uma injeção de um
antiinflamatório, por exemplo, a intenção não
é curar, mas sim atenuar a dor para ele continuar um pouco
mais, mas com segurança. E você sempre tem que alertar
que aquilo é um paliativo e que ele tem que perceber o ponto
em que não deve insistir mais, e respeitar isso, com resignação.
Pois do contrário poderá se lesar seriamente.
Já cheguei a pensar na analogia, respeitadas as proporções,
com o médico de tortura, que é chamado para avaliar
se o torturado ainda está vivo e se agüenta um pouco
mais de sofrimento ! Olha só que loucura ! O que me conforta
é saber que estou fazendo uma coisa ainda coerente e racional,
e que isso acontece com médicos do mundo todo em atividades
similares. Pare para pensar, por exemplo, na situação
dos médicos da equipe CSC e do Dr. Gérard Porte, médico
chefe do Tour de France, na situação que citei do
atleta Tyler Hamilton. Esse atleta, com a fratura de clavícula,
tinha uma chance muito maior de sofrer e causar novas quedas e a
fratura poderia lhe trazer lesões adicionais extremamente
graves.
Alguma vez você teve problemas com
atletas ?
Graças a Deus, nunca. Sempre que tive que tirar um atleta
de uma prova, consegui mostrar a ele que não dava mais, que
seria uma insanidade continuar. Muitos (homens e mulheres) choram
mas aceitam. São momentos tristes.
O que seus colegas médicos acham desse
trabalho ?
Nós, médicos, que trabalhamos com esses esportes de
risco, longe de hospitais, somos vistos como um pouco malucos. Mas
nossos colegas reconhecem que é um trabalho sério,
difícil e também importante. Já há organizações,
publicações e congressos internacionais sobre esportes
“outdoor” e de risco.
O que você acha dessa minha matéria
?
Extremamente importante e pode ser um divisor de águas na
literatura especializada. Dependendo de como você editá-la,
acredito que ajudará muito no aprimoramento das corridas
de aventura, tanto do ponto de vista de segurança do atleta
como da imagem do esportista e honestidade no esporte. Procure fazê-la
sem sensacionalismo, séria, elegante, profunda, sem distorções
e com críticas construtivas. Não perca a oportunidade
de fazer uma grande matéria, elogiada por todos e não
criticada. Não faça uma tempestade num copo d´água
a respeito do assunto Doping nas corridas e frise que apenas alguns
atletas usaram-no. E isso não é crime. Finalmente
não se esqueça de ressaltar o lado positivo das corridas
de aventura. Leio inúmeras matérias do mundo todo
e poucas lembram isso. As corridas tiraram muita gente de dentro
de casa e dos escritórios. Criaram muitos empregos e alavancaram
incrivelmente todo o mercado de equipamentos, alimentos, treinamento
e turismo de aventura. Permitem conhecimento e aprimoramento de
várias modalidades esportivas como canoagem, rafting, ciclismo,
corrida, natação, espeleologia, orientação,
técnicas verticais, etc. . Proporcionam enorme benefício
físico, social e otimização da auto-estima
pelo rigoroso treinamento e pelas conquistas. Não acredito
que haja outro esporte que aprimore tanto as relações
humanas como as corridas de aventura, pois enriquecem muito a capacidade
de se lidar com problemas cotidianos, lapidam o espírito,
dão um conhecimento profundo de si mesmo, das pessoas à
sua volta, da natureza e acima de tudo ensinam a respeitá-la
e preservá-la. Unem participantes (e culturas) do mundo todo,
que passam a conhecer lugares que talvez nunca iriam conhecer. Reaproximaram
pais, filhos, irmãos e amigos. Consolidaram amizades. Mostraram
a força do trabalho em equipe. Como pouquíssimos esportes,
permitem que pai e filho possam competir juntos, na mesma categoria.
Permitem que um competidor de 60 anos vença outro, fortíssimo,
de 25 anos, valendo-se da experiência e não só
da técnica, força e resistência. E conheci atletas
de mais de 60 anos, no exterior, com performances impressionantes.
Nas corridas, os atletas, apoios e organizadores são hoje
uma grande família. Por tudo isso é que talvez seja
a modalidade que mais cresce atualmente no mundo do esporte.
Esta entrevista foi feita em 19 de Dezembro de 2003. A matéria
sobre o tema (não a entrevista) saiu na Trip de Fevereiro
de 2004.
As corridas de aventura são um capítulo à
parte no mundo do esporte. Têm a mistura harmoniosa e sedutora
de beleza, aventura, e perigo. Exigem extrema disciplina, talento,
dedicação, amor e muita sorte. Por isso não
se pode dar chance ao azar. Ele (o azar) não a desperdiça
.
Que este texto sirva para profundas reflexões.
São Paulo, 15 de Janeiro de 2004
Clemar Corrêa da Silva
Diretor Médico da ABEA – Associação Brasileira
de Esportes de Aventura
Vice-Presidente – Centro de Estudos HCFMUSP de Medicina Esportiva
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
waimea@uol.com.br
clemar@ajato.com.br
Este documento está registrado, tem direitos
preservados e não tem fins lucrativos.
Fazendo nossas as palavras do grande amigo Sérgio Beck, seria
ingenuidade pensar que este texto
não será absolutamente copiado, transcrito ou imitado.
Se alguém tiver essa intenção, por favor, entre
em contato com o autor. Obrigado.
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