O ATLETA IDEAL DE CORRIDAS DE AVENTURA?
Fabrizio Giovannini - Equipe Quasar Lontra
“Você nunca fará nada neste mundo sem coragem. É a
maior qualidade da mente ao lado da honra.” - Aristóteles.
Desde que comecei a “correr aventura” há uma
questão controversa. Treinadores, atletas, organizadores,
jornalistas e pessoas que acompanham o esporte não conseguiram
ainda construir um consenso sobre que tipo de característica
individual é mais importante para um atleta poder contribuir
para fazer sua equipe vencedora. Esta discussão é provavelmente
alimentada pela complexidade do esporte. As pessoas que competem
precisam possuir diversas qualidades básicas:
- Capacidade aeróbica para enfrentar horas ou dias
de esforço;
- Capacidade anaeróbica para esforços intensos;
- Estrutura muscular e óssea preparada para suportar
abusos;
- Capacidade de recuperação para aproveitar a
mudança de disciplina para recuperar músculos
cansados;
- Capacidade de se alimentar adequadamente sob esforço,
- Habilidades em diversos esportes;
- Tolerância à falta de sono;
- Resistência psicológica para suportar horas
de dor, desconforto extremo, situações de risco
e de incerteza;
- Saber administrar seus “sinais vitais”: balanço
hidro-eletrolítico, balanço energético,
digestão, temperatura corporal, estado de consciência,
avaliar a gravidade de lesões, etc...
- Saber se organizar para a prova: horários, equipamentos,
alimentos.
- Ter capacidade de improvisação; saber “se
virar”.
- Saber administrar seu relacionamento com os companheiros
de equipe.
Pode haver outras qualidades que não citei, mas esta
relação já dá uma idéia de
como é ampla a lista que temos que consultar para escolher
o que é mais importante para ser um atleta de uma equipe
vencedora. O fato que uma resposta definitiva é difícil
- se não impossível - não impede que discutir
o assunto possa contribuir para um melhor desempenho das equipes
e para uma experiência pessoal mais rica e completa nas
provas.
Para simplificar um pouco a discussão, estou deixando
a questão da navegação para outra oportunidade. É óbvio
que um bom navegador é o ativo mais valioso de uma equipe.
Esta, porém, é uma qualidade que tende a ficar
restrita a uma ou duas pessoas da equipe e está ligada
a uma função específica dentro do grupo.
Há também outras funções na equipe – como
cuidar da logística da prova, procurar patrocínio,
administrar o caixa, estruturar o treinamento – que devem
ser desempenhadas por algum dos componentes ou por terceiros.
São todas funções importantes, mas que não
serão nosso foco. A proposta deste artigo é analisar
as qualidades genéricas individuais de um atleta de corridas
de aventura, independente de sua função específica
dentro da equipe.
Voltando à nossa relação, é possível
perceber que há fatores atléticos e fatores intelectuais
em jogo. Resistência física, força e capacidade
de recuperação são tipicamente qualidades
fisiológicas. Todas as outras, porém, têm
alguma relação com a capacidade intelectual. Sem
nenhuma pretensão de ser um estudo científico,
procurei montar a lista em ordem decrescente de importância
de fatores fisiológicos, e crescente de fatores intelectuais,
com base em minha experiência e nas opiniões de
pessoas ligadas ao esporte.
Antes de procurar a qualidade mais importante nesta relação, é interessante
fazer uma observação. Todas as qualidades listadas
têm uma importância significativa para o bom desempenho
de um atleta de corrida de aventura. A falta de uma delas compromete
seriamente o desempenho do atleta, por melhor que ele seja nas
outras. Exemplos não faltam: há vários casos
conhecidos de super-atletas, isto é, pessoas com elevada
capacidade fisiológica, que não conseguem obter
bons resultados em corridas de aventura. Da mesma forma, há vários
casos conhecidos de pessoas experientes, organizadas e inteligentes
que também não conseguem ter bom desempenho em
competições.
Se aceitarmos esta colocação, podemos argumentar
que é mais importante possuir um pouco de todas as qualidades
listadas do que muito de apenas parte delas. Corridas de aventura
são um caso extremo de esporte multidisciplinar. Esta
extrema multidisciplinaridade é o que, provavelmente,
tem criado toda a controvérsia em torno das qualidades
mais importantes para os atletas.
Portanto, até aqui, podemos concluir que o atleta de
aventura precisa ter, adequadamente desenvolvidas, todas as qualidades
da relação, e talvez algumas que foram esquecidas.
Mas isto não ajuda muito: quem consegue treinar e se desenvolver
em tantos aspectos, tão diferentes? Talvez, através
desta pergunta, podemos achar a resposta que procuramos.
Já que não é crucial ser o melhor em qualquer uma das
qualidades listadas, o fator genético perde boa parte de sua importância.
Eu considero, inclusive, que esta é uma da melhores características
de nosso esporte: estamos livres da tirania dos genes e nosso desempenho depende
de nossa vontade. Todas as qualidades podem, em maior ou menor grau, ser desenvolvidas
através de treinamento. O maior fator limitador que enfrentamos, portanto, é o
tempo.
Para administrar a limitação do tempo, pode-se
atuar em duas frentes: dedicar mais tempo ao treinamento e tirar
o máximo deste treinamento. A questão da dedicação
está muito ligada ao próprio estilo de vida do
atleta. Uma pessoa que define suas prioridades em função
do esporte, da saúde e do contato com a natureza acaba
dedicando naturalmente mais tempo para atividades que melhoram
seu desempenho em corridas de aventura.
Mais importante, porém, é conseguir extrair o
máximo deste tempo. Mesmo o mais dedicado atleta não
vai longe, em corridas de aventura, se não tiver a capacidade,
ou melhor, a coragem, de aprender. É isto: para dominar
a multidisciplinaridade do nosso esporte, temos de estar dispostos
e ansiosos para aprender, para conhecer melhor a nós mesmos
e para conhecer melhor o ambiente que nos cerca. O atleta ideal
de aventura tem uma necessidade ilimitada de viver novas experiências
- saudáveis é bom esclarecer – com o objetivo
de saber mais sobre si mesmo, sobre o mundo, enfim, sobre a vida.
O atleta ideal de aventura também não fica passivo
diante destas descobertas: tem a capacidade de entender o que
estas experiências lhe proporcionaram e, com isto, mudar,
se adaptar, escolher os melhores caminhos entre os que ele mesmo
cria e os que lhe são oferecidos neste processo de exploração.
O que é incrível, é que uma corrida de aventura
condensa todo este processo em algumas poucas horas ou dias.
Pois é. Se fosse fácil, não teria graça.
Voltar |