Equipe Quasar Lontra

 

"CORRER" AVENTURA. POR QUÊ?
Fabrizio Giovannini - Equipe Quasar Lontra

“Conquistar o medo é o início da sabedoria.” (Bertrand Russel)

Todos nós, que já participamos de uma corrida de aventura, já tivemos de responder a uma mesma pergunta feita por amigos, desconhecidos e, às vezes, por nós mesmos: porque você participa de corridas de aventura?

A pergunta surge, obviamente, em função do espanto diante do tamanho da “roubada” que estas provas parecem ser. Mesmo quem não participa competitivamente sabe que, só para terminar de forma honrosa uma corrida de aventura, é necessária uma boa dose de esforço e sacrifício.

A resposta nem sempre vem rápida, clara ou convincente, mesmo para nós. Muitas vezes é uma mistura confusa de declarações de amor pela natureza, pelo esporte e pelo espírito de equipe. Será que é só isso? Será que é tudo isso?

Confesso que, desde que comecei a me dedicar ao esporte competitivo – há mais de 25 anos – dúvidas surgem na minha cabeça sobre o real motivo de submetermos nosso corpo e mente a tamanhos esforços, voluntariamente! Alguém poderia dizer que fazemos isto pensando nas compensações que o esporte, em geral, propicia: autoconhecimento, segurança pela superação de desafios, reforço de valores morais, saúde e capacidade física, satisfação da vaidade. Seria como um cálculo de retorno sobre investimento: investimos tempo e sacrifício que renderão – talvez – resultados. Estas respostas eram suficientes, para mim, no atletismo, no triathlon. Mas não será que há algo mais nas corridas de aventura?

Muitos de nós podem dizer que, com o tempo, os treinos se tornam uma atividade agradável, necessária. Sem dúvida, a companhia dos amigos em lugares bonitos, junto com aquela euforia depois de alguns minutos de trabalho aeróbico, proporciona momentos impagáveis. Mas o que dizer dos treinos solitários, na escuridão e no frio do nosso inverno, em nossa poluída São Paulo? E o estresse para encaixar os treinos dentro de nossos compromissos de trabalho, com a família, com os amigos? É claro que tentamos sempre enxergar os aspectos positivos, como a possibilidade de introspecção que algumas horas, sozinhos no escuro e no frio, proporcionam. Mas, que é duro, é duro! E isto é pouco se comparado com uma prova.
Algum investimento de tempo e esforço, portanto, acontece. Não dá para negar. Quais são, então, os resultados que o justificariam? Será que há algo além do que os outros esportes oferecem?

Acho que podemos começar descrevendo os principais aspectos das corridas de aventura. De uma forma ou de outra, estes aspectos estão presentes em outros esportes também, mas, até onde pude chegar, a combinação das corridas de aventura é única:

  • Praticadas ao ar livre, em meio à natureza, em locais remotos ou de difícil acesso;
  • Envolvem grandes incertezas, que impedem um planejamento abrangente;
  • Praticadas em equipe;
  • Envolvem uma disputa direta, entre várias equipes;
  • Exigem capacidade e esforço físico em diversas modalidades esportivas;
  • Exigem capacidade e esforço mental;
  • São competições não motorizadas, onde os equipamentos têm importância secundária.

Não conheço outro esporte que combine todas estas características. Além disso, é preciso considerar que o resultado é muito mais que a soma de suas partes. O resultado é um esporte que força, até as últimas conseqüências, o contato das pessoas com a natureza. Não é possível se proteger ou se isolar do ambiente, devido à necessidade de avançar rápido, com o menor peso possível. Não dá para planejar detalhadamente a prova, pois a incerteza é uma constante. Não dá para procurar, com calma, o ponto ideal para atravessar um rio, um brejo ou uma seção de mata fechada. Por melhor que seja a navegação, muitas vezes é necessário se arriscar em locais por onde, provavelmente, ninguém iria. À noite, então, nem pensar: mas as equipes de corredores de aventura estarão lá!

Normalmente, não dá para levar barracas, sacos de dormir, colchonetes e muita roupa para se proteger. Comida, só o mínimo. Água, boa parte se coleta ao longo do percurso. Precauções com alimentação, cortes, batidas, buracos, plantas, animais e insetos peçonhentos ou perigosos são mínimas - quando alguém se lembra. Ao final, histórias de erros de navegação épicos, hipotermias, hipoglicemias e hiponatremias quase fatais, desidratações demolidoras e cicatrizes em todos os lugares possíveis, são “troféus” que os competidores guardam consigo pelo resto da vida. Quando forem avôs (e avós!), histórias para os netos não vão faltar.
O fato de se estar em equipe amplia ainda mais esta disposição para experimentar novos desafios. Quem se imaginava, antes de participar de uma corrida de aventura, varando a Mata Atlântica à noite, mergulhando em um mangue de cheiro estranho de roupa e mochila, pedalando um downhill maluco no escuro com sono, ou remando um caiaque em corredeiras de um rio desconhecido? Tudo isto no mesmo dia e achando o máximo! Se não fosse a segurança e a motivação que nos dá a companhia de amigos em quem confiamos, poucos se arriscariam.

As sensações e emoções proporcionadas por este contato íntimo, quase irrestrito, com as forças da vida e da natureza, são o que considero o grande retorno do investimento de tempo e esforço que fazem os corredores de aventura. Conhecer como nossa mente e nosso corpo reagem a condições inimagináveis, e quais as nossas possibilidades diante das condições que a natureza impõe, é uma experiência indescritível. É uma mistura de surpresa, espanto e euforia diante de limites e obstáculos que pareciam intransponíveis, mas que vão sendo superados.
São momentos únicos, proporcionados por um esporte único em sua capacidade de nos levar a extremos e nos fazer, assim, sentir um pouco da essência da vida. Este é um grande resultado, dentro de um mundo em que o nosso contato com o essencial se encontra obstruído por ambientes artificiais, pressões para consumir, relacionamentos de “networking”, poluição, modas.

H. D. Thoreau, em 1854, talvez radicalizou demais, mas deixou palavras que expressam muito bem o que estou querendo dizer:

“ Eu fui para a floresta porque eu desejava viver deliberadamente, enfrentar somente os fatos essenciais da vida, e ver se eu não poderia aprender o que ela tem a ensinar, e não, quando eu vier a morrer, descobrir que eu não vivi. Eu não desejava viver o que não é vida, viver é tão precioso; nem eu desejava praticar resignação, a menos fosse realmente necessário. Eu quis viver profundamente e sugar toda a seiva da vida, viver de forma tão resoluta e espartana – de forma a desvendar tudo o que não era vida, cortar uma larga extensão e desbastar rente, encurralar a vida em um canto, e reduzi-la a seus menores termos, e, se ela provasse ser mesquinha, então entender toda sua mesquinhez,..., ou se fosse sublime, saber por experiência própria,...”

As corridas de aventura, como toda a experiência que nos faz ter contato com o que é essencial, têm o potencial de nos fazer mudar para melhor. Se formos capazes de aproveitar o que estas experiências nos oferecem, vamos dar alguns passos na direção do que realmente importa. Aí, até os sacrifícios da família e dos amigos serão recompensados.
Para quem acha que estou exagerando, termino com um pouco de filosofia oriental:

“Eu ouço, eu sei. Eu vejo, eu me lembro. Eu faço, eu entendo.” (Confúcio)

Faça uma corrida de aventura - treinado e com uma equipe de verdadeiros amigos - e você entenderá!

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