Equipe Quasar Lontra
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Experiência no Mundial da Nova Zelândia 2005

A tradicional Southern Traverse, prova de 500km ininterruptos que acontece anualmente na Nova Zelândia, e que tem fama de ser a mais dura corrida de aventura do mundo, sediou a final do AR World Championship de 2005.
Obtivemos a vaga e a inscrição da prova ao vencermos o Ecomotion Pró de 2004, prova esta que faz parte do circuito mundial e o representa na América latina.
Foi um ano de preparação, pois já sabíamos da fama da prova e de seu organizador, Geoff Hunt, de ser um “louco varrido”. Mas só sentimos mesmo na pele a sua “loucura” quando estávamos entregues à natureza neozelandesa...
Após o briefing que foi realizado um dia antes da largada, já percebemos que o desafio seria grande, mesmo porque até o próprio Geoff citou alguns PC os quais ele não havia conseguido chegar, mas que certamente os atletas conseguiriam...
A largada aconteceu no que pode-se chamar de “centrinho” de Westport, cidade que sediou a competição. “Centrinho” pois é provável que com uma cidade de 5mil habitantes a rua principal seja considerada o centro..
Corremos aproximadamente 3Km até a praia e de lá pegamos os caiaques para remar 15Km pro norte. Foi aí que a temida “loucura” de Geoff se concretizou, ou melhor, começou a se concretizar...
O mar estava simplesmente furioso, com ondas de até 2 metros ou mais, e a água bem fria.
Pegamos os nossos caiaques e os carregamos até a ponta esquerda da praia, onde as ondas se apresentavam um pouquinho mais mansas. Logo na entrada, não consegui baixar todo leme, e tentando colocar a saia (proteção de neoprene que vestimos pra não entrar água no cockpit), uma onda nos pegou de lado e nos virou logo na beirinha...Graças ao apoio da equipe Merrel (aliás que pessoas maravilhosas..) que nos ajudaram a desvirar o caiaque e tirar toda a água que tinha entrado, conseguimos sair em direção ao horizonte. Tínhamos que remar muito forte pra pegar as ondas gigantes de frente, sem haver o risco de virarmos novamente. Essa hora foi até divertida apesar da adrenalina estar a mil no sangue. Só lembro de ondas muito fortes batendo no Rafa (que estava remando na frente), e ele praticamente ficava encoberto pela espuma...foi uma experiência única.
Passada a arrebentação, direcionamos o caiaque pro norte e recomeçamos nossa remada forte. Estávamos sempre atentos à ondulação, que vinha por trás, na perpendicular, e causava muita instabilidade.
Encontramos o outro caiaque com o Fabrízio e o Gary (nosso gringo de ouro), e seguimos juntos. Eles estavam super contentes de não terem virado...
Passamos algumas equipes, e começamos a entrar na prova, quando avistamos uma cena muito bizarra: o local em que deveríamos sair para a área de transição, era onde desembocava um rio, e era simplesmente inacreditável a arrebentação que havia por lá. Já estávamos avistando alguns caiaques virados, coisas boiando, pessoas sendo puxadas pelos jet skis, enfim, uma cena de guerra no mar...
Pegamos coragem, e essa hora já nem avistávamos o outro caiaque da equipe...entramos na primeira onda e remamos fort. Eu disse: “Rafa, nem olha pra tras, só rema”... Era porque eu já tinha visto o tamanho da onda e estava apavorada...Logo que começamos a descer, o caiaque virou de lado pra onda e...viramos. Foram minutos muito tensos. Fiquei presa dentro do caiaque por não conseguir desprender minha saia, e desesperada consegui me contorcer pra colocar o rosto pra fora da água e pedir ajuda. Por sorte o Rafa já estava fora do caiaque, boiando e me tirou. Pegamos os remos e deixamos o caiaque, que foi sendo levado pela enormes ondas. Segurá-lo com aquelas ondas era impossível. Nós ficamos à deriva, tentando pegar “jacaré” pra sair e tomando vários “caldos” inesquecíveis...(pego onda à mais de 15 anos e nunca senti tanto medo como esse dia..)
Teve uma hora que até o piloto do jet-ski, que estava tentando me puxar pra fora da zona de arrebentação, caiu junto comigo quando uma onda nos pegou...foi horrível.
Depois de alguns minutos de luta pela sobrevivência chegamos à praia e fomos resgatar o caiaque, que estava inundado de água e muito pesado.Percebi também que havia perdido meu reservatório d'água, a bomba e o cabos de resgate.
Refeitos do susto, fizemos uma boa transição e partimos pra bike de 50Km. O tempo estava muito frio e chuvoso. A bike já começou com uma subida de 10Km de asfalto com 700m de desnível, e pedalando bem, fomos ganhando algumas posições. A navegação não era tão difícil, mas fisicamente foi uma bike muito dura. Subidas super íngremes, travessia de rios e descidas bem técnicas e muito escorregadias.

Após 4hs de bike chegamos bastante animados à transição para o trekking. Nos alimentamos bem e saímos com as mochilas bem pesadas, já que estava previsto aproximadamente 20hs de trekking. Antes de iniciá-lo, fomos informados da alteração do aumento do percurso. Partimos, prevendo termina-lo por volta do meio-dia do dia seguinte. Entretanto, foi muito mais difícil do que imaginávamos. Apenas os 10km inicias tinham trilhas, já fechadas e íngremes. O restante era todo pela mata. A velocidade era baixa, uma vez que tínhamos de ficar atento ao relevo, e ir abrindo caminho na vegetação fechada, ou nos segurando nos penhascos. Em um trecho que descíamos uma cachoeira bastante escorregadia, presenciamos um atleta caindo e quebrando o braço. Às 02:00 da manhã chegamos a um PC polêmico, o PC6. Sua coordenada apontava para o leito de um rio, entretanto, o mesmo encontrava-se afastado cerca de 300m da margem, no meio da mata fechada. A busca por ele fez com que a grande maioria das equipes perdesse horas preciosas em sua busca. Na seqüência iniciamos uma ascensão de 1000m cortando a mata fria.
As 16:00 partimos, prevendo termina-lo por volta do meio-dia do dia seguinte. Entretanto, foi muito mais difícil do que imaginávamos. Apenas os 10km inicias tinham trilhas, já fechadas e íngremes. O restante era todo pela mata. A velocidade era baixa, uma vez que tínhamos de ficar atento ao relevo, e ir abrindo caminho na vegetação fechada, ou nos segurando nos penhascos. Em um trecho que descíamos uma cachoeira bastante escorregadia, presenciamos um atleta caindo e quebrando o braço. Às 02:00 da manhã chegamos a um PC polêmico, o PC6. Sua coordenada apontava para o leito de um rio, entretanto, o mesmo encontrava-se afastado cerca de 300m da margem, no meio da mata fechada. A busca por ele fez com que a grande maioria das equipes perdesse horas preciosas. Na seqüência iniciamos uma ascensão de 1000m cortando a mata fria.

Discutimos na equipe sobre uma parada para sono nesta noite. Apesar de necessária em uma prova de longa duração, não pudemos parar devido ao frio e ao corte do dia seguinte: teríamos de terminar este trekking e iniciar o trecho de rafting até as 19:30h, caso contrário seríamos desclassificados. A progressão na mata era lenta, o terreno difícil. Tivemos de começar a racionar comida, uma vez que o tempo de caminhada estava sendo muito maior do que havíamos planejado (e levado de comida). Para piorar ficamos longos trechos também com água racionada. Enchemos as garrafinhas em uma pequena vala por onde escorriam gotas do orvalho da noite. Às 10:40 do segundo dia de prova atingimos o PC7. Restavam cerca de 20km de trekking, e a falta de comida nos deixava cada vez mais fracos. Seguimos pelas cristas daquelas montanhas, tentando forçar o ritmo, mas foi em vão. Resolvemos nos abastecer de água, o que nos levou a um percurso maior para buscar um rio. Chegamos à área de transição somente as 02:00 do terceiro dia de prova. Estávamos cortados, fora da prova, junto com um terço das equipes que largaram...

Deixamos a prova muito cedo. Menos de um terço havia se passado, e resolvemos então acompanhar a prova até o final, um pouco nas áreas de transição e um pouco realizando alguns trechos da prova de bike, trekking, caiaque e técnicas verticais. A prova ainda teve mais 3 trekkings que duraram entre 14 e 24horas cada, além de um trecho de mountain bike onde menos de 40% era pedaláveis segundo os atletas que chegavam à área de transição, em um percurso que levavam pelo menos 19 horas.

Ao final, pude perceber que a prova não foi bem dimensionada em seu tamanho, tempo e percurso. O organizador teve de postergar o segundo horário de corte e diminuir o percurso para que a prova acabasse a tempo. No final, das 46 equipes que largaram apenas 6 cruzaram a linha de chegada. Os Neo Zelandese da Balance Vector venceram a prova com uma incrível vantagem de mais de 14 horas sobre o segundo colocado, a Nike Balalance Bar. Infelizmente o mundial deste ano não foi como imaginávamos. As dificuldades foram excessivas, assim como o percurso, para o tempo disponível. Conversando com outros atletas de outras equipes, inclusive dentre os que terminaram a prova, pude notar seus descontentamentos também. Mas como alguns falaram, com seus pés cheios de bolhas e feridas, assim são as corridas de aventura, imprevisíveis.
Em 2006, o campeonato mundial acontecerá em agosto, na Suécia. A equipe espera poder participar dessa edicao, e quem sabe, terminar a corrida bem, ä exemplo da edicao de 2004 no Canadá, em que obteve a 13 colocacao.

Marina Verdini e Rafael Campos

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