Equipe Quasar Lontra
Equipe Quasar Lontra

 

Mundial de corrida de aventura 2007: equipe Mitsubishi QuasarLontra mostra a fibra dos brasileiros.

Em 121 d.C. a maior máquina de guerra que o mundo já vira, desistiu de conquistar o norte da Britannia e construiu o muro de Adriano: uma muralha com a qual o Imperador homônimo esperava conter as incursões das tribos de bárbaros do norte que habitavam aquela região inóspita. Esta muralha acabou praticamente definindo o que é hoje a fronteira entre Escócia e Inglaterra.
As legiões romanas até que conseguiram vencer várias vezes os Scotti, como chamaram os “selvagens”. O que conteve seu avanço foi a natureza hostil: o frio, as chuvas constantes, o vento, o terreno pantanoso e as íngremes montanhas ao norte.

Maio de 2007 d.C.: 49 das melhores equipes de corrida de aventura do planeta vão tentar conquistar as Highlands da Escócia. A fama da região já intimida e só uma equipe latino americana arrisca se apresentar para a prova: a Mitsubishi QuasarLontra, que vai disputar seu quarto Mundial de Corrida de Aventura. Rafael Campos e Fabrizio Giovannini já são veteranos da QuasarLontra em mundiais. Tessa Roorda e Erasmo Cardoso “Chiquito” completam a equipe.

O percurso será tão difícil que algumas das favoritas sequer vão terminar a prova, mesmo com cortes. A Aberdeen Asset Management, campeã Inglesa de Corrida de Aventura e a SOLE, campeã do Ecomotion Pro 2006 não passaram da AT6 (área de transição 6). E os motivos não foram lesões, mas simplesmente exaustão física e mental.

A base da prova fica em Fort William, no centro de uma região onde chove praticamente todos os dias. É o maior índice pluviométrico da Grã Bretanha, o dobro do resto da ilha. As temperaturas vão de -3C° a 14C°, afinal, o verão está longe. As montanhas com mais de 1.000 metros ainda tem neve.

Sexta-feira, 25 de maio: as equipes recebem os mapas com 527 kms de percurso e 22.500 metros de ascensão: 200 km de trekking, 200 km de MTB e 125 km de remo e 2 km de natação!
Sábado 5:00: deslocamento para Ilha de Rum (Hébridas Interiores) com um ferry lotado de equipes, caiaques e equipamentos. O tipo de embarcação impressiona: toda fechada, cheia de equipamentos de salvamento, feita para enfrentar o tempo inclemente do atlântico norte. Amanhã vamos remar com nossos frágeis caiaques neste mesmo mar... No prólogo: 700 metros de natação no mar gelado e 26 Km de trekking com navegação de precisão. A chegada é em frente ao castelo do antigo dono da ilha. Lugar lindo, mas para nós reserva uma surpresa desagradável: 2 horas de penalização pela falta de equipamento obrigatório a ser paga a critério da organização junto com as 2h 25m de diferença acumuladas em relação à equipe vencedora do prólogo.
Domingo 8:00: largada nos caiaques. Vamos voltar remando para as Highlands em 65 km de mar aberto. Algumas equipes viram. A ¾ do caminho, uma portage de 1,5 km e 10 km de trekking com navegação de precisão. Às 23:20 terminamos bem colocados, mas, antes de reembarcarmos nos caiaques, a organização nos manda pagar as 4h 25m.
-“Mas assim não passaremos o primeiro corte, às 3:00!”.
Muitas outras equipes estão em situação parecida. Como a revolta é geral, o fiscal do PC diz que o horário de corte da AT1 (que fica a 1h 15m remando) deverá ser flexibilizado.
A casa onde está o PC não pode ser usada para dormir e encontramos um barracão a 150 metros dali. Às 24:00 a organização decide liberar a partida de todas as equipes para manter o corte às 03:00 da segunda-feira. Nós estamos dormindo e só nos encontram para avisar às 02:35. Discussões intermináveis, mas nada feito: chegamos a AT1 às 03:45 e pegamos o primeiro corte. O desânimo com a desorganização é grande, mas o inglês responsável pela AT1 dá um conselho valioso: continuem, pois no máximo 5 equipes conseguirão completar o percurso sem cortes.
E a Mitsubishi QuasarLontra parte para a recuperação. O trekking vai bem, motivado pelas vistas das montanhas que temos de escalar e pela companhia da Equipe Nike que encontramos na última metade do trecho. Chegamos ao AT2 e iniciamos os 144 km de MTB animados, mas até a prova surpresa do próximo PC: temos de saltar de 7 metros de altura dentro de um poço sob uma cachoeira. O frio é horripilante e decidimos saltar nus, só com o equipamento obrigatório: capacete, colete e sapatilha. Precisamos manter as roupas secas para continuar pedalando.
Seguimos de bike e a região não tem trilhas definidas e a probabilidade de encontrar outra equipe é pequena.
Chegamos à AT3, às margens do lago Ness, esgotados, mas aliviados. Agora, dois de nós vão nadar 500 metros e todos remaremos 2 km para cruzar o lago onde “mora” o famoso monstro. O cansaço aumenta a sensação de frio e trememos constantemente; estamos quase nos acostumando.
Às 18:35 de terça-feira saímos da AT4 e começamos o trekking mais difícil: atravessar 44 km do “deserto escocês”. É um altiplano totalmente recoberto pelo Bog, um pântano recoberto por tufos de capim e musgo. A noite cai e a neblina também. Visibilidade de 5 metros. Não conseguimos navegar e vencidos pelo frio e pela chuva que cai de lado, dormimos abrigados em uma cabana que milagrosamente encontramos. Amanhece, mas a visibilidade continua nula. A única solução é esquecer a topografia, azimutar sul e torcer que os pântanos e rios sejam superáveis. O fantasma da hipotermia nos assombra por horas intermináveis, até que na tarde de quarta-feira conseguimos chegar à T5. A organização e as outras equipes nos olham incrédulos: como os brasileiros continuam na prova?!
- “Congratulations!”
- “Great job brazilians!”
O clima já eliminou várias equipes locais e esse pessoal continua firme, comentam. Algum respeito vamos conquistando.
Mais alguns km de MTB bem técnica, trekking e cordas no meio do caminho, até a AT6. Aqui, na manhã da quinta-feira, começamos o trecho mais temido por todos, chamado pela organização de OPS: Outrageous Portage Stage. Isso mesmo, Seção de Portage Ultrajante! São 12 km de portage com carrinhos e mais 3 kms de portage em pântano, arrastando os caiaques , que pesam mais de 60 kg carregados, como burros de carga. Os pés, que já fizeram todos os trekkings encharcados, sofrem muito nesta seção. A Mitsubishi QuasarLontra é uma das 20 equipes que consegue evitar o corte 2 na AT7 e assim se recupera parcialmente do corte injusto na AT1. Um prêmio para a perseverança.
Já é sexta-feira, sétimo dia de prova, e, depois de um trekking rápido até a AT8 e um single track de MTB incrível até a AT9, temos de decidir se subimos o Ben Nevis, a montanha mais alta da Escócia. São as 21:00 e a chance de termos um acidente nas “cornices” de neve ao longo da trilha é grande; além do risco de navegação à noite. Se formos direto para a chegada a penalização é de 15 horas. A decisão é difícil, mas se revelou acertada. Nós decidimos ir para a chegada e as poucas equipes que arriscam subir na mesma hora se perdem ou entram em hipotermia e retornam a AT9.
Terminamos em 18º lugar. Colocamos o Brasil como 12º país no ranking. Só uma equipe local ficou na nossa frente, 17 ficaram atrás.

Das 49 que largaram, somente 5 equipes completam o percurso total e 31 terminam rankeadas.
O frio nos deixou exaustos, a nossa pele rachada e as pontas dos dedos dos pés e mãos formigando até hoje, uma semana após o término da prova. Mas isso é pouco frente à satisfação de ter mostrado que “não tem tempo ruim” para os corredores de aventura brasileiros.

Nosso muito obrigado aos patrocinadores
Mitsubishi Motors, patrocinadora das maiores conquistas e aventuras nacionais e internacionais da equipe.

Adventure Gears, pelos uniformes de alta performance;
GU, pelos isotônicos e géis, carboidrato instantâneo durante toda a corrida
Ciclocaravelle, pelo apoio a mais de 6 anos

Hidro 2, pelos equipamentos de canoagem
Academia Reebok, pelo auxílio na preparação física
• Dr Cristiano Laurino e Dr Clemar Corrêa, pela paciência, tratamento, conselhos, e consultas.

Daqui a duas semanas, palestra com imagnes e vídeso sobre a prova na loja Kailash, em São Paulo.

Confira as fotos desta empreitada na página de fotos da equipe, ou clicando no link:

http://www.quasarlontra.com.br/images/ARWC%202007%20Escocia/index.htm

 

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