Equipe Quasar Lontra
Equipe Quasar Lontra

 

O limite humano na Patagônia Gélida. Por Victor Teixeira

Recebemos os mapas, para competirmos na Patagônia Expedition Race, na manhã do dia 11 de fevereiro passado, no suntuoso Hotel José Higueiras, de estilo neo-clássico, e tivemos a primeira surpresa: mapas escala 1:100.000 e 1:200.000, obtidos via satélite. Junto recebemos 5 identificações para as sacolas alimentação, e uma para cada modalidade: mountain bike, canoagem e verticais. E a de trekking: não havia, já que a organização determinava que a condução dos materiais obrigatórios e os casacos polares e fleece tinham que estar sempre com os atletas.
Os números de ATs e PCs para os 560 kms ficou determinado em 08, ou seja, nem sempre mudaríamos de modalidade tendo acesso às bolsas de alimentação. Ficava a critério das equipes a quantidade de alimentos que deveriam portar nas pernadas.
O race book estipulou:
Largada simbólica -Praça das Armas – Punta Arenas- Travessia de Ferry Boat Largada de bike em Povenir tendo ao Pc1 -El Concejo variação de altitude de 500 metros – distância 128km
Pc 1 -El Concejo ao Pc 2 Rusffin – 18 km Trekking
Pc 2 -Rusffin ao Pc3 -Rio Grande– Bike 27 km
Pc3 -Rio Grande ao Pc4 -Chorrillo Los Perros- 110 km trekking
Pc4 -Chorrillo Los Perros ao Pc 5 -Collado Genskowski- Bike 57 km
Pc 5 - Collado Genskowski ao Pc6 -La Paciencia – 46 km Trekking
Pc6 -La Paciencia ao Pc 7 -Fiordo Parry – 25 km caiaque
Pc 7 -Fiordo Parry ao Pc 8 -Bahia Yendegaia – 60 km trekking e cordas
Total: 560 kms

Concentração e Largada

A concentração para a largada ocorreu na Praça das Armas, centro de Punta Arenas, sob uma garoa fina e temperatura de 5 graus. Fomos escoltados até o ferry boat, juntamente com todo o aparato da organização – alimentos, staffs, equipe médica etc.
A travessia de 2 horas e meia até Povenir, porta de entrada da Terra do Fogo, nos mostrou a força da natureza: ventos de 100 kms horários e ondas de 4 metros.
A tensão era evidente nas 11 equipes aventureiras da França, Argentina, Espanha, Argentina, Turquia, Chile, USA e Brasil
Chegamos a Terra do Fogo e foi dada a largada.
Partimos para vencer 128 kms de mountain bike, em piso de terra batida e pedras, totalmente pedalável, no pelotão da frente, junto com os franceses e espanhóis. Passados 20 kms, tivemos o nosso 1º pneu furado. Além deste seguiram-se mais dois. E, quando achávamos que nossa cota de revés neste trecho havia passado surgiu outro problema: o atleta Alexandre urinou sangue. Faltavam 70 kms para o PC/At1, e pedalamos com cautela. De repente aconteceu uma condição típica da região: chuva de granizo, ventos fortíssimos acompanhados de frio intenso.
Chegamos na 6ª colocação ao PC 1, e passado por avaliação médica, foi dado o diagnóstico para nosso atleta: cálculo renal. A solução: diurético e anti-inflamatório. A 1ª noite se aproximava, eram 21:30 hs, horário que escurece no verão patagônico.

PC/AT 2
Partimos para um trekking de 18 kms totalmente sem trilha, em campo aberto com vegetação rala e repleto de calafates (frutas típicas da região). Encontramos com a equipe da Turquia e juntos prosseguimos a jornada. Atingimos o PC 2, em franca recuperação, na 4ª colocação, e encontramos nossa bolsa 1 de alimento. Mas uma surpresa nos aguardava: nossas bikes não haviam chegado. Eram 6:00 hs da manhã e o dia estava claro. Ficamos 3 horas sentados, sem termos dormido, esperando as bicicletas. Mas tivemos a promessa da organização de que teríamos um bônus por esta parada forçada.

PC/AT3
Com a entrega de nossas bikes, seguimos para vencer o trecho de 27 kms em singles que entrecortavam campos repletos de Guanacos ( animal similar às lhamas).
Vencida esta etapa, sem percalços, com a moral em alta, encontramos nossa bolsa alimento 2, e nos preparamos para o momento chave da competição: trekking de 110 kms, para os quais a organização estimou a progressão em mais de 2 dias. O corte na prova estava previsto para dois e meio a frente.
Partimos na 6ª colocação, sem a nossa bonificação.

PC/AT 4 – A verdadeira Patagônia Sul
O trecho era árduo: sem trilhas e presença humana, com inúmeros vales e rios que os entrecortavam. Nossa meta inicial: atingir o Rio Condor e lá fazermos um merecido bivaque.
E a progressão: 3 kms por hora. Ocorre que nas matas, 50% das árvores com caules de 1,5 de diâmetro encontram-se caídas, ou pela ação do vento implacável, ou pela ação de castores que foram trazidos à Patagônia Argentina para a extração de peles. Como não possuem predadores naturais, os castores se multiplicaram, causando uma devassa nas matas, a ponto de ser o único animal autorizado para ser caçado.
Atingimos o Lago Blanco, situado a 6 kms do Rio Condor, às 23 :00 hs. E decidimos lá pernoitar. Nossos termômetros marcavam 0 graus. O frio era terrível. Fizemos comida quente e montamos o bivaque sob garoa fina: piso forrado com cobertor grosso de emergência, sleeping bag e saco impermeável bivaque por cima da cada saco de dormir. E o resultado: não parávamos de tremer de frio. A noite foi interminável. Quando comíamos algo às 6:00 da manhã, pronto para seguirmos a jornada, passaram pelo local as duas equipes Argentinas, que não conseguiram parar à noite por não estarem suportando o frio.
Seguimos na busca do Rio Condor, e o atingimos no início da tarde. Tínhamos, então percorrido 50 kms.
Atravessamos o Rio, e partimos para a subida de vales. Lá a dificuldade de progressão mostrou-se outra: imensos platôs de 3 kms com solo repleto de turvas (tufos de vegetação avermelhada esponjosa), intercalados por lodaçais, nos quais afundávamos até os joelhos. E, num desnível destes aconteceu um acidente: o atleta Alexandre torceu um joelho. O grito de dor foi ensurdecedor e o inchaço imediato de sua perna mostrou a gravidade da lesão. Mas não havia como conseguir atendimento médico: estávamos a 70 kms do AT 4. O jeito foi o uso de anti-inflamatório que resultou numa redução da dor, mas não impediu que nossa progressão fosse mais lenta ainda.
Mesmo assim, alcançamos as duas equipes Argentinas e a Chilena, que nos haviam superado à noite.
Escolhemos uma rota diferente das demais equipes que encontramos: descemos o vale e andamos por dentro do Rio Condor. A progressão lenta nos ocasionou mais uma noite de bivaque, similar à anterior: frio intenso, coberto de chuva com granizo.
No início da manhã nossa comida praticamente havia acabado, motivo pelo qual iniciamos um racionamento de alimentos.
Acabamos por atingir o PC 4 às 17:00 do dia 16, 6 horas além do admitido. Tirando nossa bonificação, estávamos com 3 horas de atraso. Tínhamos percorrido 283 Kms.
No PC-4 estavam a equipe chilena e a francesa Raid74, que haviam chegado poucos minutos antes de nosso time. Faltavam as duas equipes Argentinas e uma equipe americana.
Pôr este PC, só haviam cumprido o horário 5 equipes.
Dois dias se passaram, e nada de americanos e argentinos. O resgate composto por integrantes do exército chileno, os carabineiros, já estava pronto para sair em busca, quando surgiu a equipe Club Patagônia da Argentina, e a informação de que os times Untamet dos USA e Montagne haviam sido resgatados. O estado dos integrantes era assustador: sem comer há 2 dias, estavam totalmente desorientados.
Assim, no dia seguinte fomos levados à Povenir para regressarmos à Punta Arenas.
Na volta, tivemos a notícia: o mau tempo havia impossibilitado a realização das duas etapas de caiaque e a ascensão em cordas. Também, o trekking final havia sido reduzido, gerando às equipes que continuaram na prova apenas mais 143 kms, divididos em trekking glacial e mountain bike. Com isso a expedição teve o percurso total de 426 kms, percorridos em 10 dias.

A classificação final, incluída a nossa bonificação, ficou assim:
1º .authenticnutrition.com França - 426kms
2º Canarias - Andalucia Spiuk Tenerifes Espanha - 426 kms
3o Team Touareg Turk Turquia - 426 kms
4o Team Littleton Bike and Fitnes USA - Canadá - 426 kms
5º Medilast Sport Lleida – Sky Espanha - Chile - 426 kms
6º QuasarLontra Máster Brasil - 283 kms
7o Raid 74.org - Sky Airlines França - 283 kms
8o Punta Arenas Chile - 283 kms
9o Club Patagonia Argentina - 283 kms
10º Montagne Argentina - 200 kms
11º Untamet Adventure USA - 200 kms

Como resultado, uma constatação: percorremos locais por onde pouquíssimos humanos passaram, tivemos contato visual com animais totalmente selvagens e sentimos a força bruta da natureza. A mais, tivemos lição de superação pessoal passada por Alexandre Machado, que mesmo contundido nunca perdeu o senso esportivo, de bom humor transmitido pela Belinha e de espírito de equipe transferido pelo Pietro. De mim, meus companheiros ouviram piadas e cantorias infames.

QuasarLontra.

Apoio:

 

 

Equipe Canon Quasar Lontra
Todos os direitos reservados - Copyright Equipe QuasarLontra
Caso não deseje receber mais informativos QuasarLontra, favor responder este email com o assunto "cancelar"